A transformação da fé-esperança no tempo moderno
Como pôde desenvolver-se a ideia de que a mensagem de Jesus é
estritamente individualista e visa apenas o indivíduo? Como é que se chegou a
interpretar a salvação da alma como fuga
da responsabilidade geral e, consequentemente, a considerar o programa do
cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros?
Para encontrar uma resposta à questão, devemos lançar um olhar sobre as
componentes fundamentais do tempo moderno. Estas aparecem, com particular
clareza, em Francisco Bacon. Que uma nova época tenha surgido graças à
descoberta da América e às novas conquistas técnicas que permitiram este
desenvolvimento é um dado fora de discussão. Mas, sobre o que é que se baseia
esta mudança epocal? É a nova correlação de experiência e método que coloca o
homem em condições de chegar a uma interpretação da natureza conforme às suas
leis e, deste modo, conseguir finalmente a vitória da arte sobre a natureza (victoria
cursus artis super naturam).A novidade conforme a visão de Bacon está numa
nova correlação entre ciência e prática. Isto foi depois aplicado também
teologicamente: esta nova correlação entre ciência e prática significaria que o
domínio sobre a criação, dado ao homem por Deus e perdido no pecado original,
ficaria restabelecido. Quem lê estas afirmações e nelas reflecte com atenção,
reconhece uma transição desconcertante: até então a recuperação daquilo que o
homem, expulso do paraíso terrestre, tinha perdido esperava-se da fé em Jesus
Cristo, e nisto se via a redenção. Agora, esta redenção, a restauração do paraíso
perdido, já não se espera da fé, mas da ligação recém-descoberta entre ciência
e prática. Com isto, não é que se negue simplesmente a fé; mas, esta acaba
deslocada para outro nível o das coisas somente privadas e ultraterrestres e,
simultaneamente, torna-se de algum modo irrelevante para o mundo. Esta visão
programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a
actual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperança
cristã. Assim também a esperança, segundo Bacon, ganha uma nova forma. Agora
chama-se fé no progresso. Com efeito, para Bacon, resulta claro que os
descobrimentos e as recentes invenções são apenas um começo e que, graças à
sinergia entre ciência e prática, seguir-se-ão descobertas completamente novas,
surgirá um mundo totalmente novo, o reino do homem. Nesta linha, apresentou um panorama
das invenções previsíveis, chegando ao avião e ao submarino. Ao longo do sucessivo
desenvolvimento da ideologia do progresso, a alegria pelos avanços palpáveis
das potencialidades humanas permanece uma confirmação constante da fé no
progresso enquanto tal.
Simultaneamente, há duas
categorias que penetram sempre mais no centro da ideia de progresso: razão e
liberdade. Aquele é sobretudo um progresso no crescente domínio da razão, sendo
esta considerada obviamente um poder do bem e para o bem. O progresso é a
superação de todas as dependências; é avanço para a liberdade perfeita. Também
a liberdade é vista só como promessa, na qual o homem se realiza rumo à
plenitude. Em ambos os conceitos liberdade e razão está presente um aspecto
político. O reino da razão, de facto, é aguardado como a nova condição da
humanidade feita totalmente livre. Todavia, as condições políticas deste reino
da razão e da liberdade aparecem, à primeira vista, pouco definidas. Razão e
liberdade parecem garantir por si mesmas, em virtude da sua intrínseca bondade,
uma nova comunidade humana perfeita. Nos dois conceitos-chave de razão e
liberdade, tacitamente o pensamento coloca-se sempre em contraste com os
vínculos da fé e da Igreja, como também com os vínculos dos ordenamentos
estatais de então. Por isso, ambos os conceitos trazem em si um potencial
revolucionário de enorme força explosiva. Temos de lançar brevemente um olhar
sobre duas etapas essenciais da concretização política desta esperança, porque
são de grande importância para o caminho da esperança cristã, para a sua
compreensão e persistência. Há, antes de mais nada, a Revolução francesa como
tentativa de instaurar o domínio da razão e da liberdade agora também de modo
politicamente real. Inicialmente, a Europa do Iluminismo contemplou fascinada
estes acontecimentos, mas depois, à vista da sua evolução, teve de reflectir de
modo novo sobre razão e liberdade. Significativos destas duas fases de recepção
do que acontecera em França são dois escritos de Emanuel Kant, nos quais ele
reflecte sobre os acontecimentos. Em 1792, escreve a obra Der Sieg des guten
Prinzips über das böse und die Gründung eines Reichs Gottes auf Erden (A vitória do princípio bom sobre o
princípio mau e a constituição de um reino de Deus sobre a terra). Nela afirma:
A passagem gradual da fé eclesiástica ao domínio exclusivo da pura fé religiosa
constitui a aproximação do reino de Deus. Diz também que as revoluções podem
apressar os tempos desta passagem da fé eclesiástica à fé racional. O reino de
Deus, de que falara Jesus, recebeu aqui uma nova definição e assumiu também uma
nova presença; existe, por assim dizer, uma nova expectativa imediata : o reino
de Deus chega onde a fé eclesiástica é superada e substituída pela fé religiosa,
ou seja, pela mera fé racional. Em 1794, no livro Das Ende aller Dinge
(O fim de todas as coisas), aparece uma imagem diferente. Agora, Kant toma em
consideração a possibilidade de que, a par do fim natural de todas as coisas,
se verifique também um fim contrário à natureza, perverso. Escreve a tal
respeito: Se acontecesse um dia chegar o cristianismo a não ser mais digno de
amor, então o pensamento dominante dos homens deveria tomar a forma de rejeição
e de oposição contra ele; e o anticristo [...] inauguraria o seu regime, mesmo
que breve, (baseado presumivelmente sobre o medo e o egoísmo). Em seguida,
porém, visto que o cristianismo, embora destinado a ser a religião universal,
de facto não teria sido ajudado pelo destino a sê-lo, poderia verificar-se, sob
o aspecto moral, o fim (perverso) de todas as coisas.O século XIX não perdeu a
sua fé no progresso como nova forma da esperança humana e continuou a
considerar razão e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da
esperança. Todavia a evolução sempre mais rápida do progresso técnico e a
industrialização com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situação social
completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado
proletariado industrial, cujas terríveis condições de vida foram ilustradas de
modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar
claro que isto não pode continuar; é necessária uma mudança. Mas a mudança
haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da
revolução burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a
proletária. O progresso não podia limitar-se a avançar de forma linear e com
pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do
momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo
passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo
àquilo que Kant tinha qualificado como o reino de Deus. Tendo-se diluída a
verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A
crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na
crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente
bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política de uma política pensada
cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade,
indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com
pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a
situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para
a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do
manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa,
graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a
mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução
deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia. Com a sua vitória, porém,
tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactidão
o modo como realizar o derrubamento. Mas, não nos disse, como as coisas
deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da
classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de
produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam
anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver
claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto
caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um
para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que,
nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como
proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do
proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma
se demonstraria caduca. Esta « fase intermédia » conhecemo-la muito bem e
sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando
atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de
idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não
deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é
lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade
maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a
sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive
para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria.
O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de
condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições
económicas favoráveis. Encontramo-nos assim novamente diante da questão: o que
é que podemos esperar? É necessária uma autocrítica da idade moderna feita em
diálogo com o cristianismo e com a sua concepção da esperança. Neste diálogo,
também os cristãos devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e
experiências, em que consiste verdadeiramente a sua esperança, o que é que
temos para oferecer ao mundo e, ao contrário, o que é que não podemos oferecer.
É preciso que, na autocrítica da idade moderna, conflua também uma autocrítica
do cristianismo moderno, que deve aprender sempre de novo a compreender-se a si
mesmo a partir das próprias raízes. A este respeito, pode-se aqui mencionar
somente alguns indícios. Antes de mais, devemos perguntar-nos: o que é que significa
verdadeiramente progresso; o que é que ele promete e o que é que não promete?
No século XIX, já existia uma crítica à fé no progresso. No século XX, Teodoro
W. Adorno formulou, de modo drástico, a problematicidade da fé no progresso:
este, visto de perto, seria o progresso da funda à megabomba. Certamente, este é
um lado do progresso que não se deve encobrir. Dito de outro modo: torna-se
evidente a ambiguidade do progresso. Não há dúvida que este oferece novas
potencialidades para o bem, mas abre também possibilidades abissais de mal possibilidades
que antes não existiam. Todos fomos testemunhas de como o progresso em mãos
erradas possa tornar-se, e tornou-se realmente, um progresso terrível no mal.
Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do
homem, no crescimento do homem interior (cf. Ef 3,16; 2 Cor 4,16), então aquele não é um
progresso, mas uma ameaça para o homem e para o mundo. No que diz respeito aos
dois grandes temas razão e liberdade, aqui é possível apenas acenar às questões
relacionadas com eles. Sem dúvida, a razão é o grande dom de Deus ao homem, e a
vitória da razão sobre a irracionalidade é também um objectivo da fé cristã.
Mas, quando é que a razão domina verdadeiramente? Quando se separou de Deus?
Quando ficou cega a Deus? A razão inteira reduz-se à razão do poder e do fazer?
Se o progresso, para ser digno deste nome necessita do crescimento moral da
humanidade, então a razão do poder e do fazer deve de igual modo urgentemente
ser integrada mediante a abertura da razão às forças salvíficas da fé, ao
discernimento entre o bem e o mal. Somente assim é que se torna uma razão
verdadeiramente humana. Torna-se humana apenas se for capaz de indicar o
caminho à vontade, e só é capaz disso se olhar para além de si própria. Caso
contrário, a situação do homem, devido à discrepância entre a capacidade
material e a falta de juízo do coração, torna-se uma ameaça para ele e para a
criação. Por isso, falando de liberdade, é preciso recordar que a liberdade
humana requer sempre um concurso de várias liberdades. Este concurso, porém,
não se pode efectuar se não for determinado por um critério intrínseco comum de
ponderação, que é fundamento e meta da nossa liberdade. Digamos isto de uma
forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado
de esperança. Consideradas as mudanças da era moderna, a afirmação de S. Paulo,
citada ao princípio (Ef 2,12),
revela-se muito realista e inteiramente verdadeira. Portanto, não há dúvida de
que um reino de Deus realizado sem Deus e por conseguinte um reino somente do
homem resolve-se inevitavelmente no fim perverso de todas as coisas, descrito
por Kant: já o vimos e vemo-lo sempre de novo. De igual modo, também não há
dúvida de que, para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, não
basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e
nos fale. Por isso, a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela
própria: razão e fé precisam uma da outra para realizar a sua verdadeira
natureza e missão.
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