A vida eterna
o que é?
Até agora estivemos a falar da fé e da esperança no Novo
Testamento e nos inícios do cristianismo, mas deixando sempre claro que não se
tratava apenas do passado; toda a reflexão feita tem a ver com a vida e a morte
do homem em geral e, portanto, interessa-nos também a nós, aqui e agora. Chegou
o momento, porém, de nos colocarmos explicitamente a questão: para nós, hoje a
fé cristã é também uma esperança que transforma e sustenta a nossa vida? Para
nós aquela é performativa uma mensagem
que plasma de modo novo a mesma vida ou é simplesmente informação que,
entretanto, pusemos de lado porque nos parece superada por informações mais
recentes? Na busca de uma resposta, desejo partir da forma clássica do diálogo,
usado no rito do Baptismo, para exprimir o acolhimento do recém-nascido na
comunidade dos crentes e o seu renascimento em Cristo. O sacerdote perguntava,
antes de mais nada, qual era o nome que os pais tinham escolhido para a
criança, e prosseguia: O que é que pedis à Igreja?. Resposta: A fé. E o que é
que vos dá a fé?. A vida eterna. Como vemos por este diálogo, os pais pediam
para a criança o acesso à fé, a comunhão com os crentes, porque viam na fé a
chave para a vida eterna . Com efeito hoje, como sempre, é disto que se trata
no Baptismo, quando nos tornamos cristãos: é não somente um acto de
socialização no âmbito da comunidade, nem simplesmente de acolhimento na
Igreja. Os pais esperam algo mais para o baptizando: esperam que a fé de que
faz parte a corporeidade da Igreja e dos seus sacramentos – lhe dê a vida, a
vida eterna. Fé é substância da esperança. Aqui, porém, surge a pergunta:
Queremos nós realmente isto: viver eternamente? Hoje, muitas pessoas rejeitam a
fé, talvez simplesmente porque a vida eterna não lhes parece uma coisa
desejável. Não querem de modo algum a vida eterna, mas a presente; antes, a fé
na vida eterna parece, para tal fim, um obstáculo. Continuar a viver
eternamente sem fim parece mais uma condenação do que um dom. Certamente a
morte queria-se adiá-la o mais possível. Mas, viver sempre, sem um termo,
acabaria por ser fastidioso e, em última análise, insuportável. É isto
precisamente que diz, por exemplo, o Padre da Igreja Ambrósio na sua elegia
pelo irmão defunto Sátiro:Sem dúvida, a morte não fazia parte da natureza, mas
tornou-se natural; porque Deus não instituiu a morte ao princípio, mas deu-a
como remédio. Condenada pelo pecado a um trabalho contínuo e a lamentações
insuportáveis, a vida dos homens começou a ser miserável. Deus teve de pôr fim
a estes males, para que a morte restituísse o que a vida tinha perdido. Com
efeito, a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida
pela graça. Antes, Ambrósio tinha
dito: Não devemos chorar a morte, que é a causa de salvação universal .
Independentemente do que Santo Ambrósio quisesse dizer precisamente com estas
palavras, é certo que a eliminação da morte ou mesmo o seu adiamento quase
ilimitado, deixaria a terra e a humanidade numa condição impossível e nem mesmo
prestaria um benefício ao indivíduo. Obviamente há uma contradição na nossa
atitude, que evoca um conflito interior da nossa mesma existência. Por um lado,
não queremos morrer; sobretudo quem nos ama não quer que morramos. Mas, por
outro, também não desejamos continuar a existir ilimitadamente, nem a terra foi
criada com esta perspectiva. Então, o que é que queremos na realidade? Este
paradoxo da nossa própria conduta suscita uma questão mais profunda: o que é,
na verdade, a vida? E o que significa realmente eternidade? Há momentos em que
de repente temos a sua percepção: sim, isto seria precisamente a vida
verdadeira, assim deveria ser. Em comparação, aquilo que no dia-a-dia chamamos vida,
na verdade não o é. Agostinho, na sua extensa carta sobre a oração, dirigida a
Proba uma viúva romana rica e mãe de três cônsules, escreve: no fundo, queremos
uma só coisa, a vida bem-aventurada, a vida que é simplesmente vida, pura felicidade.
No fim de contas, nada mais pedimos na oração. Só para ela caminhamos; só disto
se trata. Porém, depois Agostinho diz também: se considerarmos melhor, no fundo
não sabemos realmente o que desejamos, o que propriamente queremos. Não
conhecemos de modo algum esta realidade; mesmo naqueles momentos em que
pensamos tocá-la, não a alcançamos realmente. Não sabemos o que convém pedir
confessa ele citando São Paulo (Rm 8,26).
Sabemos apenas que não é isto. Porém, no facto de não saber sabemos que esta
realidade deve existir. Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância (docta
ignorantia) escreve ele. Não sabemos realmente o que queremos; não conhecemos
esta vida verdadeira e, no entanto, sabemos que deve existir algo que não
conhecemos e para isso nos sentimos impelidos. Penso que Agostinho descreve
aqui, de modo muito preciso e sempre válido, a situação essencial do homem, uma
situação donde provêm todas as suas contradições e as suas esperanças. De certo
modo, desejamos a própria vida, a vida verdadeira, que depois não seja tocada
sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, não conhecemos aquilo para que nos sentimos
impelidos. Não podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que
tudo quanto podemos experimentar ou realizar não é aquilo por que anelamos.
Esta coisa desconhecida é a verdadeira esperança que nos impele e o facto de
nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como
também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo autêntico e o
homem verdadeiro. A palavra vida eterna procura dar um nome a esta desconhecida
realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão.
Com efeito, “ eterno “ suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos
amedronta; ”vida “, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos
e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que
satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a
queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da
temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a
eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo
parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e
nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor
infinito, no qual o tempo o antes e o
depois já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a
vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo
tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus,
no Evangelho de João: “Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração
alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria “ (16,22). Devemos
olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que
esperamos da fé, do nosso estar com Cristo.
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